Valsando

 

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Os sapatos brilhavam negros nos pés ansiosos.

Ela contava mentalmente os passos que deveria dar, a barra do vestido roçando delicadamente seus calcanhares.

Ele respirava fundo, não tinha muita certeza se daria certo, se seria certo.

A música começou a tocar e como por mágica os corpos passaram a se mover em sintonia, leves e esperançosos.

A cintura dela apertada na mão direita dele a fazia ter certeza. A cintura dela apertada na mão direita dele o fazia desejar.

Os giros os deixaram tontos, ela perdeu o fôlego, ele fechou os olhos com força, não podiam perder o equilíbrio, estava tudo tão perfeito!

Mas o perfeito não ia se apresentar naquela dança, ela tropeçou na perna meio fora de lugar dele. Ele a segurou. Já tinham perdido um tanto do ritmo.

Ele sorriu. Ela sorriu.. Os olhos não.

Mais uma volta da valsa e o sapato dele escorregou ao pisar no laço do vestido dela. Ela o amparou. Voltar ao passo agora parecia ser quase impossível.

E o impossível quis se apresentar naquela dança. Os sorrisos se foram, a música estava acabando, eles estavam cansados.

De quem era a culpa pela valsa mal bailada? Não importava mais.

Ela agradeceu de cabeça baixa e se foi. Ele apenas retribuiu o cumprimento e saiu também.

Outras valsas viriam…Outros palcos…

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Tardes da vida

 

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Numa tarde dessas o sol brilhava ardente e o céu estava azul como era esperado numa época como aquela.

O vento quente soprava forte na esperança de ser refresco…

E numa dessas tardes é que a gente pára e pensa na vida, pensa no sentido de tudo e nos seus porquês…

A vida não é boa em dar respostas, ela é boa em mostrar. Nos giros que ela dá em si mesma, no tempo que não nos pertence, no controle que não existe, ela mostra as verdades que ela esconde.

Então, as vezes, assim, numa dessas tardes da vida a gente se depara com verdades indecifráveis, com sonhos perdidos, com sentimentos insensatos e saudades mirabolantes.

Tardes da vida, mas nunca tarde pra saber e nunca tarde pra soltar um clichê..

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O duque e eu

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O livro, romanticamente ambientado na sociedade inglesa do século XIX, é de uma leitura rápida e leve.

A história é envolvente e da metade para frente deslancha de tal forma que você precisa ler até o final. O livro nos conta a historia de Daphne, uma jovem que nasceu em uma família abastada e cheia de irmãos. Nos mostra como de certa forma ela está a frente de seu tempo, pois mesmo sendo mulher ela tenta impor sua vontade, principalmente na escolha de seu futuro marido.

É através dela, e de uma repórter alcoviteira misteriosa, que conhecemos o outro arco do livro, que se passa com o conquistador Duque Simon. Um rapaz órfão de mãe desde o nascimento e renegado pelo pai, que morreu sem ter a companhia do filho e sem dar ou receber o perdão, já que ele não o considerava merecedor de ser seu herdeiro.

A surpresa, ao menos pra mim, foi o enredo ter passagens sensuais em vários pontos, pois por tudo acontecer em uma época tão cheia de pudor e tradição você não espera ver tais fatos, mas eles pulam vez ou outra aos olhos, alguns bem picantes, inclusive.

No geral,é um livro bom, mas não muito profundo. É uma história de amor, que tem como pano de fundo os costumes da sociedade inglesa da época e muito superficialmente nos mostra como uma infância marcada por traumas psicológicos pode interferir nas atitudes e anseios do adulto que nasce a partir dessa criança.

Fica a dica, até porque esse livro faz parte de uma trilogia (ainda não li os outros) que contam as histórias paralelas aos personagens principais do volume, que são a jovem Daphne e o duque Simon. Se quiser um estímulo a mais a autora Julia Quinn é considerada a Jane Austen contemporânea.

Boa Leitura.

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O sepulcro das palavras

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As vezes somos como coveiros de sentimentos, verdades, sonhos e desejos.

Enterramos em nossos peitos palavras não ditas, sonhos impossíveis, desejos inconfessáveis.

Fazemos de nossos corações cemitérios infinitos, mais profundos que sete palmos.

Vivenciamos lutos diários no não- não dito, no sim incomodo, do contrário disso… Tanto assim que de repente num olhar descuidado e desnudo no espelho vemos refletido em nossos olhos epitáfios contínuos e quase esquecidos… quase.

Aqui jaz alguém que teria sido…”

 

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O olhar

 

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A beira da praia ela estava. O mar vinha lhe beijar os pés em seu movimento incansável e repetitivo.

O sol se punha, o vento lambia seu vestido leve e branco, bagunçava feroz seus cabelos soltos e cumpridos. Mas ela não estava se importando com nada daquilo..

Seu olhar estava no horizonte pelo simples fato de não poder olhar para trás. Olhar para trás seria se perder, e perder não era mais opção.

Olhar para trás era ver o que se queria, mas que não lhe pertencia mais. Eram os beijos impossíveis, os abraços indevidos, os erros inevitáveis, as escolhas impensadas. Os amigos que deram adeus, a família que seguiu além. Era ve-la de uma forma que machucaria mais que a dúvida do amanhã.

Ela não olhou para trás, mas o passado lhe tocou o ombro. Soprou em sua nuca, a fez arrepiar, a fez fechar os olhos com força para resistir a vontade de dobrar o pescoço e dar uma espiada. As mãos suaram.. o coração disparou.

O mar veio mais uma vez lhe beijar, ela então respirou fundo, como se aquela onda lhe acordasse do torpor que a acometera. Então ela correu, correu o tanto que suas pernas pudessem aguentar, que seu folego permitia, que sua coragem incentivava.

As brumas lhe refrescavam os pés cansados, machucados e doidos.. ela não podia mais parar, ela sabia, se parasse, o passado lhe tocaria de novo e se ele lhe tocasse, o que ela faria?

Só poderia ir em frente, e só…

 

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